Refletindo Criticamente sobre as Eleições na Psicologia Brasileira

Prezados colegas,

Finalizou-se nesta segunda feira, dia 30 de agosto a apuração dos votos da consulta realizada entre os psicólogos para Conselho Federal. O quadro entre as duas chapas concorrentes foi o seguinte:

Região

Cuidar

%

Fortalecer

%

Total

Diferença

Dif.%

BR

33321

51,9%

30860

48,1%

64181

2461

3,8%

 

No país há aproximadamente 120 mil Psicólogos sendo que a metade deles está no estado de São Paulo, com expressividade na grande São Paulo. Isto posto, ao compara-se os números apresentados com os absolutos, observa-se que participaram desta festa da democrática comemorada no dia do Psicólogo apenas 50% da categoria. Para nós que estamos envolvidos no processo político há sempre uma alegria pela vitória e um desejo de compreender o que esses números significam. Posições quase conflitantes entre si que normalmente ficam esquecidas uma vez que a tarefa de “governar” começa imediatamente, sendo muitas as demandas.

Um olhar imediatista frente ao cansaço que decorre do processo eleitoral nos leva a comemorar. E temos mesmo que comemorar, mas certamente muitas podem ser as lições a serem aprendidas. Não tenho dúvida em afirma que um pouco (ou muito) dessa abstenção é fruto de um descompromisso sócio-político que ainda vigora em nossa sociedade, ainda que o voto seja obrigatório. O resultado não é muito diferente daquele que leva as “reuniões de condomínios”, que não são obrigatórias, a ter uma participação baixíssima, algo em torno de quatro a cinco pessoais incluindo dentre elas o síndico e conselheiro.  Desta forma, penso que apesar dos avanços da democracia em nosso país ainda estamos longe de ver um entendimento maior sobre a importância da participação de cada um.  Mas será que nas democracias mais consolidadas do planeta isso é muito diferente?

Ao analisar novamente o cenário das estratégias políticas em todos os níveis, observo a presença de uma competência fundamental aos políticos, que não raro leva os cidadãos comuns à indignação. Refiro-me à “competência para a hipocrisia” que traz para o cenário político o jogo das bravatas e mentiras, e o uso legítimo de mecanismos institucionais que visam a reversão de resultados de modo a enquadrá-los àqueles que seriam desejáveis. Aliás, uma variação de um mecanismo de defesa bem explicado por nosso bom e velho Sigmund. Se no momento do pleito a competência para a hipocrisia se manifesta nas oposições de idéias (nem sempre tão opostas assim) durante o período de governo ela pode se apresentar nos conchavos pró-governabilidade que escandalizam a todos. Será que no âmbito da Psicologia estamos isentos do uso desse tipo de competência? Será que nos damos conta que, por mais que nos preocupemos com a questão há sempre uma pressão social (inconsciente) para que esse jogo aconteça na política em todos os níveis? Ao tratar da dialógica a transdisciplinaridade pode dar boas pistas para a compreensão da questão.  Penso que para nós psicólogos que, de uma forma ou de outra, lidamos com os processos de consciência, essa seja uma reflexão obrigatória. De ambos os lados, ou em ambas as chapas. Se assim procedermos poderemos, de nosso lugar (exercendo uma liderança situacional) contribuir para o desenvolvimento da democracia em nosso país. Portanto, não podemos nos permitir  “ao luxo” de fazermos uma política (inconsciente) como outras categorias podem fazer. Temos a obrigação social, ou melhor um compromisso social, de ao inserir a psicologia na sociedade fazê-lo de uma forma consciente, portanto temos que olhar com coragem para isso e não nos permitirmos a esse jogo.

Acho que precisamos refletir sobre o uso dessa competência e assumir uma posição. Não podemos nos permitir a esse tipo de estratégia que nos leva a usar os jargões políticos onde a mentira a bravata e afins fazem parte do discurso, sempre na busca pelo eleitor desavisado (grande maioria) que fará um, ou outro grupo, ascender ao poder. Não podemos! Pensando de forma ampla a Psicologia tem avançando muito na sociedade brasileira, sua penetração é cada vez mais necessária, senão urgente, e o Movimento Cuidar da Profissão tem grande responsabilidade nesses avanços. 

Quando analisamos a distribuição dos votos, porém, (ver quadro acima) apesar das fracas e pouco embasada propostas da oposição as urnas mostraram que há um desejo de mudança. É importante lembrar que votar na oposição não significa uma concordância com os princípios da outra chapa, como esta pode querer fazer parecer, é apenas uma forma de protestar e afirmar o desejo por mudanças. Uma mudança quase infantil em muitos casos, “pois assim como Alice, fábula de Lewis Carroll, não sabia dizer ao gato para onde quer ir, muitos de nossos colegas sabem que não querem ficar, mas não sabem bem para onde querem ir”. Aliás, desconhecem mesmo onde estão, pois se conhecessem teriam muitas razões para quere ficar, pois ficar significaria avançar. Evidentemente essas questões deverão ser pensadas como uma parte importante de nosso compromisso social, uma vez que tão importante quanto propor políticas públicas, é ter profissionais conscientes para poder implementá-las, do contrário estas são quase inúteis.

Volto a afirmar que temos um problema sério, realmente muito sério, no que diz respeito à comunicação. O funcionamento do Sistema Conselhos é complexo e as pessoas o desconhecem completamente. Creio que muitos não participam porque estão ocupados “em ganhar dinheiro”, aliás, ouvi isso de alguns colegas no dia da eleição, e certamente não percebem que a participação (política) é uma forma de ganhar mais qualidade de vida, inclusive dinheiro.  Mas essas questões são distantes para alguns (ou muitos) de forma que não há, lembrando do Vygostky, uma “Zona de Desenvolvimento Proximal”, aquela que leva as pessoas a se envolverem num desafio e, ao fazê-lo tornam-se promotoras de seu próprio crescimento. Portanto penso que uma de nossas tarefas, será a criar essa zona.

Bem colegas, acredito como muitos que já se manifestaram que essa reflexão seja urgente. Mas, de nada adiantará apenas refletirmos agora e continuarmos fazendo como fizemos antes, frente às muitas demandas que daqui a pouco teremos de assumir. Vamos ter que mudar. Evidentemente não estou falando de fazer marketing para “divulgar o é feito pela Psicologia” ou como tem feito a oposição, nesse momento, ao usar os resultados de maneira simplista (e oportunista). Isso a maioria dos políticos de nossa sociedade é craque em fazer. Estou falando de uma mudança que precisará ser construída. Se essa mudança não acontecer, por mais que possamos focar nos resultados (fazer pela Psicologia) se não levarmos em conta o processo (levar o psicólogo a essa percepção), creio que no próximo pleito  não teremos muitos motivos para comemorar.

Fraterno abraço,

Berni

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