MANIPULANDO A INFORMAÇÃO: Jornalismo Irresponsável, Fundamentalismo e Povos Indígenas

Recentemente (08.11.2010) a TV Record no programa “Domingo Espetacular”, quadro “Reportagem da Semana” veiculou uma matéria tratando do infanticídio supostamente praticado por algumas “tribos” indígenas brasileiras.

Ao introduzir a matéria os apresentadores do programa Fabiana Scaranzi e Paulo Henrique Amorim foram totalmente parciais conduzindo os telespectadores à indignação e ao pesar, amparados por uma música de fundo que reforçava o clima psicológico desejado. Fabiana exclamou enquanto gesticulava de forma indignada:

– Uma tragédia que o Brasil desconhece!

Enquanto Amorim em tom de preocupação informou que o público iria saber “as razões pelas quais as autoridades evitam falar sobre o assunto”.

A reportagem foi iniciada de forma épica narrando a viagem de mais de 17 horas de “dois rapazes que precisam resgatar um bebê”. Então, repórter de campo Raul Dias Filho apresentou a questão do suposto infanticídio, destacando de forma fragmentada elementos da “cultura indígena” levando a uma falsa sensação de homogeneidade dos mais de 240 povos indígenas brasileiros, que falam aproximadamente 180 idiomas. As imagens de diferentes etnias foram veiculadas numa contextualização muito frágil sob a narrativa trágica proposta, fato que induz o telespectador a concluir como sendo absurda a preservação da cultura e da tradição indígenas “em pleno século XXI”.

O argumento central da matéria foi baseado no filme Hakani, que até bem pouco tempo era veiculado como “documentário”, sem que o público soubesse quem eram o autor e financiador da produção. O filme simula como seria praticado a infanticídio indígena. Entretanto os atores, todos indígenas, dão à produção um tom de verossimilhança capaz de confundir o telespectador que acredita estar assistindo a um documentário, portanto pensam estar testemunhando um infanticídio. É importante que isso seja destacado, pois esses indígenas de diferentes etnias acabam sendo usados para produzir provas contra si mesmos. A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) já havia se pronunciado sobre o filme através de sua Comissão de Assuntos Indígenas:

“Trata-se de uma tentativa de criminalização das coletividades indígenas, colocando-as na condição permanente de réus e propondo um inquérito para averiguação de seu grau de barbárie. (…) Trata-se de um falso debate, ardilosamente tecido para que as pessoas discutam se são a favor ou contra “que os indígenas possam exercer livremente a crueldade contra seus próprios filhos”. Implícita há a suspeita de uma natural perversão e irracionalidade dos indígenas, crença que serviu de álibi para que contra eles no passado fossem usadas sistematicamente a força bruta, a escravização e a pedagogia do medo. Uma suposição que vem do período colonial, fresca como um cadáver de cinco séculos, mas ainda bastante presente nas práticas autoritárias e no pensamento conservador. Sabe-se que práticas de infanticídio entre os indígenas são virtualmente inexistentes no Brasil atual, como logo vieram a esclarecer a FUNAI e os antropólogos. São raros os casos onde exista informação etnográfica confiável ou consistente sobre tais fatos. (…) o vídeo “Hakani”, colocado no You Tube e visitado por milhares de pessoas, não é um registro documental proveniente de uma aldeia indígena, mas sim o resultado de uma absurda encenação realizada por uma entidade fundamentalista norte-americana.”

A entidade fundamentalista a qual a ABA se refere é a norte-americana Youth With a Mission atuando no Brasil desde 1975 como JOCUM, “Jovens Com Uma Missão”. O diretor do filme, David L. Cunningham é filho do fundador da instituição. O trecho do filme colocado no Youtube sem os devidos créditos para que os internautas possam saber sua origem, foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. O site do filme continua a tratar a produção como documentário e não há qualquer referência aos produtores. A razão desse tipo de comportamento da instituição foi explicada pelo antropólogo britânico Stephen Corry que afirmou ao comentar o filme: “Há décadas que os missionários evangélicos escondem seu trabalho, especialmente em lugares como América do Sul, que tem uma tradição católica muito forte. A JOCUM foi expulsa de certas áreas do Brasil, mas continua lá ilegalmente”.

Outra organização fundamentalista que milita na temática publicou o e-book Infanticídio Indígena – a tragédia silenciada, uma comunicação muito bem cuidada do ponto de vista editorial capaz de causar impacto ao leitor desavisado. O mesmo efeito que se pretende com a reportagem da Record e o filme Hakani que, por sinal, foi muito utilizado no livro. O autor é o fundador de um “apostado” ou “missão” católica o brasileiro radicado australiano, Raymound de Souza que agora vive nos EUA. A organização é a “Saint Gabriel Communications International” (SGC). A publicação procura enfatizar a importância das “missões religiosas” destacando seu papel fundamental na “cristianização do planeta”. A organização possui muitos recursos financeiros e tem projeção internacional investindo pesadamente na disseminação de sua ideologia fundamentalista. Este apostolado se opõe abertamente ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI) um segmento da igreja católica que respeita a religiosidade indígena trabalhando com os indígenas sem a pretensão de catequese.

Parece haver uma grande estratégia de união entre grupos fundamentalistas. A parceria com a TV Record que pertence à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) comandada pelo bispo Edir Macedo, produz a reportagem em questão que é também largamente lastreada no documentário da jornalista indígena Sandra Terena “Quebrando o Silêncio” produzido pela ONG ATINI dos também missionários evangélicos Marcia e Edson Suzuki entrevistados durante a reportagem da Record. No documentário de Sandra há uma clara manifestação dos indígenas contra os antropólogos, argumento curiosamente baseado num fundamento antropológico o do “dinamismo cultural”. É gritante a omissão de qualquer referência às missões religiosas, que certamente produziram muito mais males às sociedades indígenas do que qualquer antropólogo posso ter causado, mas não há qualquer menção a esse fato. Um dos entrevistados de maior eloquência no documentário de Sandra é o indígena Eli Ticuna, vice-presidente do Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (CONPLEI), cuja missão explicita é evangelizar os índios. Outro argumento largamente usado pelos indígenas depoentes é que “eles não são bichos”. Evidentemente que não são, por isso os antropólogos trabalham pela preservação de suas culturas. A inquestionável importância da educação para dirimir as diferenças é também abordada no documentário da Terena, mas há um enfoque claramente de integração dos indígenas na cultura envolvente. Em nenhum momento se falou da preservação das técnicas médicas tradicionais, absolutamente fundamentais para existência das culturas. Aliás, é preciso que se faça uma distinção entre o caráter holístico das culturas indígenas muito mais centradas num enfoque mito-simbólico do que numa perspectiva lógico-epistêmico da fragmentada cultura ocidental.

Essa grande estratégia missionária se estende ao legislativo com o Projeto de Lei 1057/2007 – Lei Muwaji de autoria do pastor e fundador de uma congregação presbiteriana, o deputado Henrique Afonso (ex-PT, agora PV do Acre) vinculado à Frente Parlamentar Evangélica. O PL apresenta três argumentos: (1) Baseado na Lei Federal condena qualquer prática indígena que agrida à integridade físio-psíquica da pessoa, designada como “nociva” com destaque para o infanticídio. Sendo que as crianças em tais situações deverão ser afastadas de suas famílias ou comunidades. (2) Obriga a qualquer pessoa que saiba de situações dessa natureza junto às comunidades indígenas que formalize denuncia do fato junto ao órgão competente estabelecendo pena de detenção para omissões. (3) Essas práticas deverão ser erradicadas.

O PL sofreu parecer da deputada Janete Rocha Pietá (PT, SP) que é professora universitária, que atuou como relatora da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. O parecer contemporiza a questão salientando as duas correntes antropológicas que estão implícitas na formulação do PL. Uma que considera a existência de valores universais para toda a humanidade e outra que considera a existência de valores culturais, portanto não universais. Salienta o cuidado que deve ser tomado frente a controvérsia do tema e destaca o uso do termo “nocivas para denominar algumas práticas tradicionais dos povos indígenas, o que atribui, mesmo que implicitamente, a pecha de cruéis a esses povos e, por via de consequência, deixa de considerar sua pluralidade cultural, colocando-os à margem da sociedade”. A parecerista é favorável à aprovação do PL com alterações, propõe a criação de um Conselho Nacional Indígena e um Conselho Tutelar Indígena. “No que tange à criminalização daqueles que tiverem conhecimento da ocorrência das práticas tradicionais (arts. 3º a 5º do projeto), trata-se de equívoco, pois o desenvolvimento de trabalhos junto aos povos indígenas ficaria inviabilizado frente à obrigação legal de delação imposta a esses trabalhadores. Essa situação, por si só, dificultaria o diálogo previsto no art. 6º do projeto.”

Não há dúvida nenhuma, como propõem as produções, que a prática do infanticídio tenha levado grande sofrimento psicológico aos que o praticaram e aqueles que sofreram com o mesmo. Isso não se discute. Como é inquestionável de que a vida deve ser preservada como o bem maior. As culturas indígenas não são etnocidas como é sugerido nas produções. Lideranças indígenas como Valéria Payê, do Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas- FDDI, em sua apresentação na Audiência Pública que discutiu o PL, resgatou a experiência do seu grupo indígena “que aboliu práticas tradicionais de sacrifício de crianças há cerca de 30 anos. Ela ressaltou que isso ocorreu após um processo interno de discussão liderado pelas mulheres indígenas. Insistiu que não há a necessidade de interferência brutal de fora, mas sim a apropriação da discussão pelas comunidades indígenas, respeitando o tempo de cada uma”.

Parece claro que o que importa discutir é como se propõe a preservação da vida, pois a cultura é um de seus elementos fundamentais. As culturas indígenas são impregnadas de religiosidade. Será que as entidades religiosas envolvidas nesta questão humanitária estão dispostas a lutar pela causa indígena respeitando a diversidade religiosa desses povos? Se estão, por que não declaram isso em suas comunicações e posicionamentos? Por que, na luta pela preservação da vida, não se envolvem com a questão dos suicídios indígenas em função do “recuo impossível” pela falta de demarcação de terras indígenas e pressão dos grandes latifundiários? Morre-se muito mais nessas regiões do que por qualquer suposto infanticídio.

Por outro lado, é interessante observar como o fundamentalismo é capaz de colocar do mesmo lado, ao menos momentaneamente, oponentes históricos como são evangélicos e católicos e em oposição congregações da mesma igreja como é o caso do CIMI e da SGC.
As estratégias perversas praticadas pela sociedade ocidental sob o viés da religiosidade para cooptar indígenas para suas igrejas seduzindo-os com as tecnologias e as benesses do mundo ocidental são as mesmas desde a conquista e parecem continuar presentes nessas manifestações.

Tudo que foi dito aqui pode parecer apenas uma questão de opinião, mas não é. É importante observar como a falta de compreensão sobre essas questões por parte dos produtores e veiculadores de comunicação pode levar à falta ética e ser altamente prejudicial à sociedade indígena. Isso foi particularmente sentido pela índia Rosi e foi descrito na matéria publicada no Diário do Amazonas (21.11.2010) sob o título “A Anta que Virou Elefante num Domingo Espetacular” assinada pelo jornalista José Ribamar Bessa Freire.

“A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo: “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou: “Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”. Rosi é índia Waikhon – etnia conhecida também como Piratapuia. Mora na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM) e está de passagem por Manaus. É educadora e líder da Foin – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Escritora, participou de dois Encontros de Escritores Indígenas na UERJ. Ela faz um apelo:- “Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo INFANTICIDIO INDIGENA. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.

Portanto, parece ser cabível afirmar que as produções podem ser vistas como uma clara violação ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros que em seu artigo 7º “O jornalista não pode” traz o seguinte capítulo: “V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime” é exatamente isso que a matéria faz ao induzir o espírito dos telespectadores para um determinado olhar, ao omitir e distorcer informações lastrear seu argumento, supostamente jornalístico, em informações veiculadas por grupos que tem um claro interesse em disseminar um posicionamento ideológico. O mais incrível é perceber como jornalistas renomados, como Paulo Henrique Amorim, podem se sujeitar a esse tipo de papel.

Referências:
ABA – Infanticídio entre as populações indígenas – Campanha humanitária ou renovação do preconceito? http://www.abant.org.br/conteudo/000NOTICIAS/OutrasNoticias/nota_infanticidio.pdf acessado em 14.12.2009
CIMI – Conselho Indigenista Missionário http://www.cimi.org.br
CORRY, S. ‘Hakani’ e o caminho para o inferno. Disponível em http://assets.survivalinternational.org/static/files/background/entrevista-hakani.pdf acessado em 24/11/2010
Domingo Espetacular “Aldeias Indígenas Sacrificam Crianças” http://noticias.r7.com/videos/exclusivo-aldeias-indigenas-sacrificam-criancas/idmedia/081f526d82f8899a4d5f5438920fd581.html acessado em 25.11.2010
FREIRE, José Ribamar “A anta que virou elefante num domingo espetacular” disponível em http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=892 acessado em 25.11.2010
Hakani http://www.hakani.org/pt/
JOCUM – Jovens Com Uma Missão http://www.jocum.org.br/
Lei Muwaji (Projeto de Lei 1057/2007) disponível em
http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=351362
SOUSA Raymound – Infanticídio Indígena SGI
http://saintgabriel-international.com/infanticidio.htm
ROCHA, Janete P. Parecer sobre PL 1057/07 disponível em http://www.camara.gov.br/sileg/integras/587656.pdf
TERENA, Sandra – Quebrando o Silêncio (documentário) http://quebrandoosilencio.blog.br/tag/fime-sandra-terena/

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Refletindo Criticamente sobre as Eleições na Psicologia Brasileira

Prezados colegas,

Finalizou-se nesta segunda feira, dia 30 de agosto a apuração dos votos da consulta realizada entre os psicólogos para Conselho Federal. O quadro entre as duas chapas concorrentes foi o seguinte:

Região

Cuidar

%

Fortalecer

%

Total

Diferença

Dif.%

BR

33321

51,9%

30860

48,1%

64181

2461

3,8%

 

No país há aproximadamente 120 mil Psicólogos sendo que a metade deles está no estado de São Paulo, com expressividade na grande São Paulo. Isto posto, ao compara-se os números apresentados com os absolutos, observa-se que participaram desta festa da democrática comemorada no dia do Psicólogo apenas 50% da categoria. Para nós que estamos envolvidos no processo político há sempre uma alegria pela vitória e um desejo de compreender o que esses números significam. Posições quase conflitantes entre si que normalmente ficam esquecidas uma vez que a tarefa de “governar” começa imediatamente, sendo muitas as demandas.

Um olhar imediatista frente ao cansaço que decorre do processo eleitoral nos leva a comemorar. E temos mesmo que comemorar, mas certamente muitas podem ser as lições a serem aprendidas. Não tenho dúvida em afirma que um pouco (ou muito) dessa abstenção é fruto de um descompromisso sócio-político que ainda vigora em nossa sociedade, ainda que o voto seja obrigatório. O resultado não é muito diferente daquele que leva as “reuniões de condomínios”, que não são obrigatórias, a ter uma participação baixíssima, algo em torno de quatro a cinco pessoais incluindo dentre elas o síndico e conselheiro.  Desta forma, penso que apesar dos avanços da democracia em nosso país ainda estamos longe de ver um entendimento maior sobre a importância da participação de cada um.  Mas será que nas democracias mais consolidadas do planeta isso é muito diferente?

Ao analisar novamente o cenário das estratégias políticas em todos os níveis, observo a presença de uma competência fundamental aos políticos, que não raro leva os cidadãos comuns à indignação. Refiro-me à “competência para a hipocrisia” que traz para o cenário político o jogo das bravatas e mentiras, e o uso legítimo de mecanismos institucionais que visam a reversão de resultados de modo a enquadrá-los àqueles que seriam desejáveis. Aliás, uma variação de um mecanismo de defesa bem explicado por nosso bom e velho Sigmund. Se no momento do pleito a competência para a hipocrisia se manifesta nas oposições de idéias (nem sempre tão opostas assim) durante o período de governo ela pode se apresentar nos conchavos pró-governabilidade que escandalizam a todos. Será que no âmbito da Psicologia estamos isentos do uso desse tipo de competência? Será que nos damos conta que, por mais que nos preocupemos com a questão há sempre uma pressão social (inconsciente) para que esse jogo aconteça na política em todos os níveis? Ao tratar da dialógica a transdisciplinaridade pode dar boas pistas para a compreensão da questão.  Penso que para nós psicólogos que, de uma forma ou de outra, lidamos com os processos de consciência, essa seja uma reflexão obrigatória. De ambos os lados, ou em ambas as chapas. Se assim procedermos poderemos, de nosso lugar (exercendo uma liderança situacional) contribuir para o desenvolvimento da democracia em nosso país. Portanto, não podemos nos permitir  “ao luxo” de fazermos uma política (inconsciente) como outras categorias podem fazer. Temos a obrigação social, ou melhor um compromisso social, de ao inserir a psicologia na sociedade fazê-lo de uma forma consciente, portanto temos que olhar com coragem para isso e não nos permitirmos a esse jogo.

Acho que precisamos refletir sobre o uso dessa competência e assumir uma posição. Não podemos nos permitir a esse tipo de estratégia que nos leva a usar os jargões políticos onde a mentira a bravata e afins fazem parte do discurso, sempre na busca pelo eleitor desavisado (grande maioria) que fará um, ou outro grupo, ascender ao poder. Não podemos! Pensando de forma ampla a Psicologia tem avançando muito na sociedade brasileira, sua penetração é cada vez mais necessária, senão urgente, e o Movimento Cuidar da Profissão tem grande responsabilidade nesses avanços. 

Quando analisamos a distribuição dos votos, porém, (ver quadro acima) apesar das fracas e pouco embasada propostas da oposição as urnas mostraram que há um desejo de mudança. É importante lembrar que votar na oposição não significa uma concordância com os princípios da outra chapa, como esta pode querer fazer parecer, é apenas uma forma de protestar e afirmar o desejo por mudanças. Uma mudança quase infantil em muitos casos, “pois assim como Alice, fábula de Lewis Carroll, não sabia dizer ao gato para onde quer ir, muitos de nossos colegas sabem que não querem ficar, mas não sabem bem para onde querem ir”. Aliás, desconhecem mesmo onde estão, pois se conhecessem teriam muitas razões para quere ficar, pois ficar significaria avançar. Evidentemente essas questões deverão ser pensadas como uma parte importante de nosso compromisso social, uma vez que tão importante quanto propor políticas públicas, é ter profissionais conscientes para poder implementá-las, do contrário estas são quase inúteis.

Volto a afirmar que temos um problema sério, realmente muito sério, no que diz respeito à comunicação. O funcionamento do Sistema Conselhos é complexo e as pessoas o desconhecem completamente. Creio que muitos não participam porque estão ocupados “em ganhar dinheiro”, aliás, ouvi isso de alguns colegas no dia da eleição, e certamente não percebem que a participação (política) é uma forma de ganhar mais qualidade de vida, inclusive dinheiro.  Mas essas questões são distantes para alguns (ou muitos) de forma que não há, lembrando do Vygostky, uma “Zona de Desenvolvimento Proximal”, aquela que leva as pessoas a se envolverem num desafio e, ao fazê-lo tornam-se promotoras de seu próprio crescimento. Portanto penso que uma de nossas tarefas, será a criar essa zona.

Bem colegas, acredito como muitos que já se manifestaram que essa reflexão seja urgente. Mas, de nada adiantará apenas refletirmos agora e continuarmos fazendo como fizemos antes, frente às muitas demandas que daqui a pouco teremos de assumir. Vamos ter que mudar. Evidentemente não estou falando de fazer marketing para “divulgar o é feito pela Psicologia” ou como tem feito a oposição, nesse momento, ao usar os resultados de maneira simplista (e oportunista). Isso a maioria dos políticos de nossa sociedade é craque em fazer. Estou falando de uma mudança que precisará ser construída. Se essa mudança não acontecer, por mais que possamos focar nos resultados (fazer pela Psicologia) se não levarmos em conta o processo (levar o psicólogo a essa percepção), creio que no próximo pleito  não teremos muitos motivos para comemorar.

Fraterno abraço,

Berni

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Porque votar na Cuidar nas Eleições para o Conselho de Psicologia

            

 

Prezado(a) amigo(a),

Gostaria de convidá-lo(a) à reflexão sobre o processo eleitoral que está em curso no Sistema Conselhos de Psicologia, sobretudo no plano Federal.  Achei importante assumir um posicionamento  sendo meu objetivo compartilhar com você minhas reflexões nesse importante momento democrático da Psicologia nacional.

Como se sabe atualmente concorrendo ao Conselho Federal de Psicologia existem duas chapas a situação “Cuidar da Profissão” (21) http://www.cuidardaprofissao.org  e a  oposição “Fortalecer a Profissão”  (22) http://fortaleceraprofissao.com. Mas o que cada uma dessas chapas tem a oferecer?  Que estratégias estão usando para se aproximar dos eleitores?

Numa eleição quando um grupo tem uma história seria natural que sua campanha fosse lastreada nessa trajetória, de modo que ela justifique a razão pelas qual um eleitor deva hipotecar seu apoio a esse grupo. Por outro lado, todo movimento novo que não tem uma história grupal, naturalmente oferece as trajetórias individuais e as críticas para renovação do cenário. É exatamente isso que estamos assistindo nesse no momento eleitoral.

            Ao analisar esteticamente o site das chapas concorrentes (veja links acima) a comunicação visual da Fortalecer é mais atraente que a da Cuidar. É bom lembrar uma peleja eleitoral é também travada no campo do marketing e uma boa comunicação visual é importante para convencer o eleitor. Desta forma, visualmente falando a Fortalecer sai na frente da Cuidar.

 Mas, para além do marketing está o conteúdo. E o que se pode dizer quanto a este elemento fundamental para a consecução das propostas? Como afirmei, se compreendermos que uma das chapas,  a Cuidar (21), tem uma história anterior seria esperado que em seu site encontrássemos os fundamentos e as realizações dessa trajetória.  Se isso não acontecesse, haveria que se desconfiar desse grupo, pois ele certamente teria algo a esconder. Ao visitar o site da Cuidar (21) pode-se encontrar ali as importantes frentes de atuação daquele coletivo que, sem dúvida nenhuma, contribuiu para a ampliação da atuação da Psicologia, e dos psicólogos, no cenário nacional (e internacional) articulando num competente “Projeto de Compromisso Social”. Na Fortalecer (22) o que se observa são apenas as intenções e as críticas à concorrente além das trajetórias individuais das pessoas. Naturalmente, pois não há trajetória grupal anterior. Porém, quanto ao compromisso social ele está pautado nas críticas que geram as idéias para as futuras realizações. Certamente estamos frente a um grupo que quer uma oportunidade de mostrar que é diferente. O que é absolutamente compreensível.

Todavia, entendendo que a construção de um posicionamento sólido necessário para condução da Psicologia brasileira, sem que se perca os inúmeros avanços, leva tempo de reflexão e, visto que a atuação do grupo Fortalecer (22) ainda não teria sido possível, pois eles nunca assumiram enquanto grupo a gestão, seria esperado que se encontrasse no site da referida chapa sua trajetória de reflexão aquela que  teria levado o grupo à articulação. Entretanto isso não se pode encontrar no site da Fortalecer (22). Então me pergunto fora o descontentamento crítico que parece unir o grupo, quais são as bases reflexivas que deverão se consolidar numa proposição competente para a Psicologia brasileira? Elas parecem que não existiram antes do período eleitoral, por isso tudo que se vê são promessas. Se essa reflexão grupal existisse certamente teria sido comunicada de forma a demonstrar a competência reflexiva de um grupo verdadeiramente preocupado com os rumos da Psicologia brasileira. Portanto, ao que parece trata-se de um grupo que se articulou de maneira aparentemente abrupta para disputar uma eleição.  O que, volto a dizer é legítimo.

Neste cenário, entretanto, as críticas feitas ao Cuidar (21) parecem ser pouco significativas, uma vez que o próprio movimento é bastante autocrítico. Analisando-se o posicionamento ideológico básico da Fortalecer (22) este parece também encontrar ressonância nos fundamentos da Cuidar (21), uma vez que muitos de seus integrantes participaram deste movimento até pouco antes do período eleitoral, porém suas proposições distanciando-se desta última, sobretudo pela fragilidade dos argumentos e das propostas de mudança pouco embasadas. Portanto, no campo do conteúdo, da proposição concreta, é notório que há um destaque da Cuidar (21) que, no meu entender, se mostra muito mais fundamentada para atuar na gestão do CFP. Mas, talvez você possa achar que isso é uma estratégia de marketing uma pouco mais refinada talvez, por isso gostaria de convidar você a ler a Entrevista Debate entre as chapas promovida pela RedePsi cujo link é encontrado no site do Cuidar (21), mas que no site da Fortalecer (22), apesar do destaque na primeira página, que traz apenas somente o posicionamento daquele agrupamento.  Assim, creio que se você tiver tempo poderá analisar a profundidade das respostas apresentadas pelo Cuidar (21) frente à fragilidade pouco embasada e, portanto, superficial da Fortalecer (22) e, certamente irá concordar comigo. http://www.redepsi.com.br/portal/modules/news/article.php?storyid=5705&keywords=debate+entre+chapas+cRP

Bem, estou apoiando a Cuidar da Profissão (21) não apenas porque estarei envolvido com o grupo no CRP-SP (chapa 11), mas porque optei por essa adesão e manifestação, frente ao Compromisso Social, ao respeito à diversidade da Psicologia e às minorias epistemológicas que pude sentir nesse contato. Razão pela qual me associei ao grupo sendo este um fato absolutamente relevante. Não há apenas num discurso, este se encontra materializado em ações concretas que falam por si. Neste sentido, gostaria de destacar a aproximação realizada pela Psicologia com os Povos Indígenas um olhar absolutamente inédito em termos institucionais no Brasil. Além disso, merece destaque o diálogo aberto entre a Psicologia e as Técnicas de Saúde Complementar, como a Acupuntura, a Psicologia Antroposófica, a Transdisciplinaridade e a Psicologia Transpessoal. É claro que esse  abertura não necessariamente parte do Conselho, mas sim  da articulação e da manifestação dos profissionais que militam nessas, e outras, perspectivas epistemológicas, que encontram no posicionamento da Cuidar (21) o incentivo para sua organização. É preciso que se reconheça que a gestão do Cuidar (21), acolheu que foi capaz de ouvir ao chamado dessa diversidade para além do discurso, abrindo espaços para a reflexão e o diálogo de modo que todos pudessem batalhar por suas propostas.  Neste sentido merece destaque a capacidade de escuta, competência fundamental na Psicologia, demonstrada no tocante ao Ano da Psicoterapia. É preciso que se diga que fui bastante crítico para com os encaminhamentos assumidos neste processo. Redigi um longo documento denominado “Estudo Sobre o Ano da Psicoterapia” que encaminhei para a diretoria do CRP-SP, agora candidatas do Cuidar (21) ao CFP, e ( na chapa 11) ao CRP-SP. Isso para descontentamento de alguns que hoje estão na chapa de oposição. Esse documento que trouxe certo desconforto crítico fez com que eu fosse ouvido pela diretoria e circulou entre os conselheiros, além de ajudar no processo de reflexão e tomada de decisão da delegação de São Paulo. Vejam bem, isso é muito importante porque naquele momento eu era apenas um psicólogo que apresentava bem fundamentadas críticas que foram acolhidas e ouvidas. Isso não pode ser esquecido, pois faz parte de uma postura ética, de um respeito democrático, de um verdadeiro cuidado para com o futuro da profissão. Por isso penso que a Cuidar da Profissão ( 11 em São Paulo e 21 no Federal) merece meu voto e apoio, e espero  que possa merecer também o seu.

Com meu mais sincero respeito,

 

Luiz Eduardo Valiengo Berni

 

 

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Ouse Viver

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Ouse Viver (Dare to live – Vivere)

– Versão Luiz Eduardo V Berni-

 

Procure olhar pra frente

Não pro passado.

Nem pras coisas que deixou pra trás.

Todas aquelas doces palavras,

Que nunca foram ditas

O gentil toque,

Que nunca achou

 

E nesses dias de muitas faces

Não há verdade

Apenas fragmentos

E a vida é tudo o que tenho pra dar

 

Ouse viver

Até o fim de seus dias

 

Ouse viver

Esqueça o passado

 

Ouse viver

Dê um pouco de si mesmo aos outros

Mesmo que pareça que não há mais nada a dar

Doe-se inteiramente

 

Se encontrar uma pessoa

Em frente a seu portão

Que dorme envolta em papelão…

 

Se o mundo acordasse

Numa manhã

Sem escutar o murmúrio da chuva…

 

Tu foste criado com a Voz

Tu, pense, pense nas pessoas

Pois, Deus é apenas Deus

 

Viverei

Ninguém irá ensinar-me

Viverei

Será possível, apesar do passado

Viverei

É belo mesmo que não tenhas percebido

 

 

E sua canção será

Como você a interpretar

 

Ouse viver

(Por quê, por quê, por quê?)

Procurando aqueles pra amar

(não vivo esta noite?)

 

Ouse viver

(Por quê, por quê, por quê?)

Não apenas um, mas todos nós…

(Porque não vivo agora)

 

A vida é tudo o que você tem pra dar

(Porque não vive)

 

Eu vou dizer não

(Não. Sim, sim, sim)

 

Diga sim a vida

Ouse viver

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O Banco: Metáfora Transdisciplinar

Esta foi a única foto que fiz do encontro, a de um banco. E ainda, com uma máquina emprestada, pois eu, se quer, havia levado uma.

Curioso, não?

        Eu estava ali pelas pessoas e guardei como recordação do evento apenas a foto de um banco vazio. 

        É preciso que se diga que aquele era um banco especial, pois estava literalmente no meio do caminho. Não estava recuado num canto, como seria de se esperar que um banco estivesse, pois o local possuía todas as condições para isso.         Não.

        Ele estava bem ali, bem no meio da trilha, quase atrapalhando a passagem.

        Aliás, tratava-se de uma trilha relativamente curta.

        Penso que as pessoas entrem numa trilha para caminhar, não para sentar, muito menos num banco, que não esperam encontrar no meio de uma trilha.

        Um verdadeiro paradoxo!

        Mas, o que é mais paradoxal?

        Eu não ter fotografado ninguém, ou ter um banco no meio da trilha?

        Devo dizer que foi um banco bem disputado, pois todos que por ali passaram, queriam dar uma sentadinha nele. O que parece explicar o porque do banco estar ali. Confesso que não sentei, embora quisesse fazê-lo. Eu só o fotografei com uma máquina emprestada, pois eu se quer havia levado uma…

        Eu queria fotografá-lo sozinho. E consegui. Não foi difícil, não.

        O interessante é que, uma pessoa que não saiba desta história, ao olhar essa foto, pode ter uma compreensão completamente diferente da realidade do banco naquele momento. Certamente vai achar que se tratava apenas de um banco solitário. Não irá dimensionar que se trata da foto de banco no meio de uma trilha, feita com uma máquina emprestada, como recordação de um evento, cheio de pessoas, pelas quais o fotografo estava presente, e que não foram fotografadas, embora estivessem percorrendo a trilha, apenas alguns poucos metros à frente do fotógrafo.

        Então me pergunto: Essa seria uma percepção verdadeira?

        Na verdade do fotografo as pessoas, barulhentas, estavam só há alguns poucos passos à frente, ou atrás dele.

        Na verdade daquele que vê a foto, há apenas o silêncio por ela sugerido… Aliás, uma foto é obrigatoriamente silenciosa, senão não seria foto, e sim filme.

        Mas, por que o fotógrafo fotografou um banco vazio, se havia pessoas que podiam ter sido fotografadas sentadas no banco?     

        Um banco no meio de uma trilha quase que obriga o caminhante a sentar. Aliás, pelo que bem me lembro, o banco estava quase no final da trilha que, por sinal, tinha um ponto de ônibus (com um banco) em seu início… Assim, alguns optam por sentar no banco do começo da trilha. Esperar o ônibus e não fazer a trilha. Outros optaram por entrar na trilha sem tomar o ônibus, caminhar e sentar no banco do final da trilha… Embora inicialmente ninguém pudesse imaginar que haveria um banco no começo e outro no final da trilha. E muito menos, que esse banco seria fotografado vazio, e que alguém pudesse contar uma história sobre a foto de um banco vazio meio da trilha.

        Nossa!

        Pode parecer contraditório, mas não é. Se você quiser sentar num banco para fazer a trilha ele estará lá, a sua disposição, um no começo, e outro no final da trilha. Tudo muito simples e bem organizado. 

        Mas, será que encontrar e sentar num banco no meio da trilha não seria contrário ao propósito da trilha? Ao acaso seria um desafio sagrado pelo qual os caminhantes deveriam passar?

        Pelo amor de Deus! Que coisa mais sem lógica! Como alguém pode colocar um banco no meio de uma trilha? Como pode alguém querer fotografá-lo vazio, e o que é pior, como pode se propor e escrever uma história confusa sobre o vazio de um banco encontrado no meio de uma trilha?

        Muito bem, no meio da trilha havia um banco, não no canto – como já afirmei – que, pela lógica, seria o lugar mais adequado para ele.  Embora não fosse esperado encontrar um banco ali, no meio da trilha. Veja bem, no meio, ele estava lá.

        Talvez sentar no banco  pudesse dar uma sensação de encerrar a trilha sem tê-la trilhado.  Ou passar pelo banco sem nele sentar pudesse dar a sensação de que o banco não existia, pois a trilha seria encerrada sem que a pessoa tivesse a oportunidade de sentar no banco.

    Mas, o fato é que, o banco estava lá, no meio da trilha…

 

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